Cotidiano a flor da pele,


Trovões, a porta do banheiro entre aberta, lá fora a chuva bate forte ao chão. É madrugada, os trovões trazem para o quarto leves feixes de luz como a quem percorre o ambiente em visita, esse é o quarto de Carlos, permita me apresentar, eu como narrador pretendo nessa madrugada compor a rotina do mesmo, ele não me conhece, já você leitor, ira me conhecer, vamos dizer que talvez eu seja o Deus ao qual Carlos rejeita, eu o criei, por fim, continuaremos nossa descrição.
As madrugadas normalmente são silenciosas, tristes para alguns, há pessoas que amam esse silêncio, o barulho do nada, do vento, a espera do novo dia, acredita-se bastante que enquanto o mundo dorme, existem pessoas que como Carlos estejam apenas observando o tempo passar, talvez esse seja seu caso. Que merda! – diz Carlos caminhando pela casa em busca de algo pra comer. Algo pra enfiar garganta a dentro… O que temos? — pensa. Algo pra passar o tempo enquanto se estira na poltrona ao lado da janela. Sabe, o erro das pessoas é acreditar que tudo irá se resolver com o tempo, como se o mesmo fosse responsável pelas besteiras que fazem em seu cotidiano.

O sol forte encontra o rosto de Carlos como um despertador. Sonolento ao despertar na poltrona ergue seu traseiro em direção ao banheiro, após uma olhada no espelho, uma mijada, água no rosto, estou pronto — pensa. O café da manhã é a refeição mais importante do dia, já ouviu sobre isso?… Pois é, talvez, seja verdade, pouco importa agora.
Antes de chegar ao trabalho Carlos passa na padaria, toma seu tradicional café puro sem açúcar, dizem que alguém certa vez disse a ele que açúcar faz mal, que se dane, o tão famoso pão na chapa como se diz na região, nada mais é que um pão de sal com margarina na chapa quente, nenhum segredo. Bom dia amigo, você está com uma cara feia hoje, não dormiu? Está sabendo da novidade? O chefe vai contratar mais alguém para nos ajudar nos trabalhos aqui no Jornal, o que acha? — diz Henrique, o cara talvez tenha um humor dúbil. Diria que seja o tagarela da empresa, não no sentido mesquinho da palavra, aquela coisa que se pensa de imediato, fofoca, o tal “alguém disse isso ou aquilo”, Não! Ele não é desse tipo de pessoa, assino em baixo. Pode acreditar em mim, sei o que estou falando.
— Onde esteve ontem a noite? – Pergunta Joana.
— Hum, bem, por ai… — Disse Carlos sem o contato no olhos.
— Namoradinha? Conte-me, prometo que não falo pra ninguém, sabe, algum dia você tem que encontrar alguém, todos encontram… — Diz Joana sussurrando com curiosidade, encostada sobre a mesa de Carlos.
— Tenho que terminar essa edição — Responde Carlos. O Que custa me deixar em paz? — Pensa. Que mal há? Que Droga!
Joana sempre ousada, a quem diga que sua adolescência foi marcada pela timidez, consegue acreditar? Personalidade cativante, forte, consegue sempre o que quer, talvez você me pergunte sobre amores, ela não é do tipo que se permite conquistar, ela seduz, seu jogo, suas regras, seu jeito, ela é assim, no Rio de Janeiro/ RJ conheceu Carlos e outras pessoas do grupo quando um rapaz segurou seu braço direito e com o esquerdo, ela jogou a cerveja no rosto do mesmo… Após a confusão Carlos que estava de passagem, resolve perguntar se havia algo que poderia ser feito para ajudá-la, do mais leitor, não queria estar por perto quando ela explodir…
— Ei Carlos, o chefe no telefone — grita Henrique do outro lado da sala. Não sabe usar o telefone? — Responde de imediato. O grupo na sala pede silêncio aos dois.
Alô… sei… Pra hoje?… Compreendo… Mais alguma coisa senhor? … Eu que agradeço — Põe o telefone no seu local. Anotações, Libre Office aberto, tudo certo… Vamos as alterações… olhos para a esquerda e direita, a caneca ao lado direito da mesa, como quem em meio a tumulto almeja concentração. Dedos rápidos sobre o teclado do computador, diremos que nosso personagem tem uma rotina nada desafiador… Seria possível definir a rotina de uma pessoa por apenas seu café da manhã ou início no trabalho? Creio que não.
As horas passam como a quem por ela espera, nada de novo, apenas o relógio e o tempo seguindo seu fluxo, segundo após segundos, minutos, horas, por fim, teremos dias, semanas e anos, bem, acontece com todos… Vejamos o que temos do outro lado da rua, o nome dela é Ana, consegue ver? Ou melhor imaginar? Hoje como um dia típico de primavera, temperatura amenas, não chamaria de parque o local que se encontra, seria despretensioso demais, aproxima-se de uma praça só com os cuidados e beleza, talvez incomum, no sentido de… vejamos… Diria, um lugar que tem suas cores naturais, uma cidade, pequeno, montanhas, pessoas passeando pelo centro da mesma com seus filhos. Vamos definir de praça para não ser injusto com o ambiente.
— Bom dia Ana, vou sair um pouco e tomarei um café na Cafeteria Andrade, gostaria de me fazer companhia? – Diz Paulo dono da loja de revistas e livros usados localizado perto da praça. Sim, vamos, permita apenas organizar minha bolsa – Diz Ana olhando para Paulo com um leve sorriso no rosto.
Direi que são amigos, certo? Quem sabe! Existem amizades sinceras caro leitor, creia nisso.
Ao chegar a Cafeteria escolhem a mesa, fazem seus pedidos… Por favor, um café puro sem açúcar com um pedaço de bolo de cenoura — diz Paulo ao atendente. Quanto a você moça? — Pergunta o atendente. Chocolate e dois pães de queijo, por favor. — Responde Ana. Sinta-se à vontade — Diz o atendente. Aos cumprimentos e cordialidades por parte de Paulo e Ana em relação aos modos do local.
— Qual livro você estava lendo? — Pergunta Paulo a Ana, observando o mesmo sobre a mesa.
— Ah! Comprei a tempos, não me recordo de quando ou onde, estava olhando meus livros e resolvi ler, fala de um jovem que fugiu de Cuba para morar nos Estados Unidos, título: o porteiro, Já ouvir falar? – Diz Ana.
— Eu já li muita coisa, mas esse não conhecia, politica? … — Pergunta.
— Não! É apenas a vida de um rapaz chamado Juan, que tem que trabalhar em um edifício com pessoas complicadas, sabe como é, inclusive, não sei se tem conhecimento, mas muitas pessoas sofrem por ter que sair de sua terra natal em busca de oportunidade de vida, trabalho, educação, o básico que toda pessoa deveria ter e infelizmente está nas mãos de uma minoria de pessoas.
— Quem é o escritor?
— Aqui diz, Reinaldo Arenas — Responde Ana, pondo o livro em mãos, com o olhar fixo na parte de trás.
— Eu entendo, é bem isso, esses dias vi no jornal que um grupo de haitianos invadiram o Pais.
— Não é invasão amigo, é um pedido de socorro, uma forma de salvação. — Responde Ana entre um gole e outro do seu chocolate, com o olhar fixo, mãos e gestos firmes.
— Você estuda Ana? — Pergunta Paulo.
— Tenho apenas meus livros e meus discos, hoje estudar é bem complexo em nosso País, tenho que cuidar de meus pais. — Responde compassadamente com o olhar solto na cafeteria.
— Sei que um dia terá uma bela história pra contar e eu espero esta por aqui para ouvir.
— Obrigada, você sempre tão gentil… Sabe, até estou rabiscando uns contos e poesias, tenho meus favoritos.
Entre um café e outro, gestos e olhar firme de Ana ao abordar assuntos que a ela flui com naturalidade. Ana é uma jovem cativante, diria que é bela, pele morena, olhar misterioso, seus belos cachinhos, muitos até se perguntam o porque de deixar o mesmo preso, eu confesso que ela fica mais bela com os cabelos soltos. Ela não tem o tal perfil das musas de revista, já sua simpatia e pureza, é para poucos, assim dizem os homens de boas intenções.
— Vocês está em silêncio a tempos, o que pensas? — Pergunta Ana.
— Não se fazem mais mulheres com antes,…
— Como assim?
— Por vezes minha filha Clara perde-se por nada buscar, compreende?
— Talvez.
— Qualquer dia desses quero que ela te conheça, assim vocês podem conversar sobre música, não sei bem se você se sentirá a vontade ao lado dela, ela tem uns amigos estranhos, certo que essa juventude de hoje o ser estranho é normal, seus pais devem ser orgulhosos de você…
— Obrigado, mas não pense que sou perfeita, tenho meus medos e defeitos e garanto, até hoje luto contra minha pessoa, é o que tenho.
—Tenho que voltar a loja, retornará a praça?
— Não, irei pra casa, sabe, como é, arrumar a casa, preparar o almoço essas coisas de “dona de casa”.
— Tudo certo então, nos encontramos por ai.
Como toda cidade grande, creio eu, o barulho dos carros, pessoas apressadas, etc. Do pouco que importa assim os dias vão passando, são 13:00 da tarde e cá entre nós, não é bem um horário para pequenas refeições, estou certo?… Por fim, Carlos há de prever alguns comportamentos creio eu, por deus, convence-me! Digo a ele todas as manhãs, sabes o que recebo em troca? A fria indiferença, já pensei se existo ou não, caso não, quem sou então?… A consciência perdida nos olhos do leitor ou um mero frustrado?… Não estou aqui para falar de mim e sim de nossos até então colegas personagens.
— Como está indo a casa nova? — Pergunta Henrique no restaurante a Carlos.
— Nada de diferente do que imaginava. O ruim é organizar a papelada, as malas, o rapaz da Internet e da TV foi ontem em casa e instalou tudo que precisava, acredito que logo, estarei à vontade, gosto do ambiente — Diz Carlos ao distrair o olhar sobre o macarrão e o garfo.
— Amigo, precisamos sair, marcar algo, conhecer umas garotas, beber um pouco, ouvi falar que essa cidade é maravilhosa, que tem vários lugares agradáveis e sem contar a quantidade de garotas que conheceremos.
— Não estou em clima pra bares Henrique, quero ficar em casa, organizar minhas coisas, tenho que concluir um trabalho extra até o final da semana.
— Entendo, mas não ignore minha proposta, dizem que aqui tem várias mulheres, de todas as cores, tamanhos e acima de tudo, qual sua preferência, responda?
— Mano, você só pensa em mulheres.
— Existe algo melhor? — Do riso descontraído à mesa do restaurante, há além do humor de Henrique e sua persistência em convencer seu amigo a sair.
— De certo não é o momento ideal para farra.
A tarde segue como de costume, o café no mesmo horário, papéis, o bate papo descontraído, a sala de reuniões, nada fora do comum ao se tratar de uma redação de jornal. Um de seus melhores redatores, no caso, Carlos, encontra-se em estado de adaptação a nova cidade, junto com ele viajaram alguns funcionários da cidade anterior. Por volta das quatro horas da tarde Carlos encerra seus afazeres e parte a caminho de sua casa, cumprimenta a poucos na saída, dá um sinal com a mão direita para o segurança da empresa. Tenha um ótimo dia doutor — diz o guarda. — Não sou doutor responde agradecido, que você tenha um ótimo dia também. — Diz Carlos ao Guarda.
De longe até que nosso personagem não é uma má pessoa, o que achas? Alguma contradição? Defina o mesmo com uma palavra? Sei que você consegue. Do sagrado ao profano, diria que nada se compara a chegar em casa depois de um dia de serviço, estacionar seu carro, abrir a porta do seu apartamento e encontrar seu conforto. Dele direi que seu apartamento nada tem de especial, a não ser as coisas nos lugares certos, o tapete sempre limpo, móveis novos, sua TV, a cozinha, o pequeno bar…O ambiente perfeito concorda comigo? Carlos, retira o terno, e com a mão esquerda frouxa a gravata, e caminhando em direção ao bar prepara uma bebida, um vinho, talvez, põe uma canção que lembra seu velho pai, qual o nome da música? Desculpe… Lembrei! A música se chama; Violets For Your Furs, John Coutrane. Seu velho sempre teve ouvidos afinados para a música.
No momento em que Carlos degusta sua bebida acompanhado por uma bela canção, falarei um pouco sobre sua sua família. Filho mais novo de uma família de 3 irmãos, o mesmo se destacava nos estudos, a quem dizia pelo bairro que o mesmo nada se parecia com seus outros irmãos, seu pai, um boêmio que cantarolava nas madrugadas canções aos amantes, bêbados e afins, sempre com seu violão, a voz rouca, grave e suave, nas vezes que emocionava o público com sua performance nas apresentações, o mesmo via no jovem Carlos algo de especial, não que os outros não fossem, longe de mim, dizer isso, mas ele tinha os olhos do pai, o ouvido musical do velho, porém nunca aprendeu a tocar um instrumento, orgulhava-se quando na escola todos conheciam seu velho pai. Ambicioso e convicto de que seria alguém na vida, foi em busca de seus sonhos, sabe aqueles livros de auto-ajuda, seja um sucesso, viva feliz, dentre outros temas?… Carlos sabia exatamente por onde trilhar, viajou para o Rio de Janeiro/ RJ após concluir o ensino médio, se formou em direito, mas foi como editor que se encontrou como pessoa, alguns dizem que o dinheiro é o foco de vida, o auge do sucesso ou da conquista pessoal, o mesmo experimentou esse momento. A quem diga que foi por esforço que o mesmo conseguiu tudo que buscava, Ao visitar sua terra natal nas férias sempre leva presentes a todos, a família organiza uma festa pelo sucesso do filho na vida, convida os parentes vizinhos, muita música, bebidas, risos, conversas descontraídas. O fato do mesmo viver sozinho em uma cidade distante, faz sua mãe se preocupar, ele diz que está bem e que se um dia conhecer alguém especial, eles saberão.
No quarto, o mesmo dorme tranquilamente. No dia seguinte na empresa ao passar pela porta um tanto apressado por ter chegado uns minutos fora do horário é surpreendido por seu amigo Henrique, quem era dessa vez? — Pergunta. — Ninguém, apenas o maldito engarramento.— Responde ofegante ao tempo que bebe seu café expresso da manhã. Por falar nisso, quem é a jovem na mesa perto do corredor? — Pergunta Carlos com um ar de curiosidade. — Desculpe, não te falei — Um tanto misterioso — começou hoje pela manhã, o nome dela é Ana, é a nova secretária, um amigo do chefe recomendou que trabalhasse aqui e segundo observei parece ser uma boa pessoa. Espere até ela conhecer o cão dos diabos que é nosso chefe. — Ambos soltam um riso solto em direção ao nada.
Sim, Ana foi indicada por Paulo, o lojista, lembra? Que ao conhecer bem a índole da mesma, resolveu usar sua influência para conseguir um serviço tranquilo e de meio período pra Ana, assim a tarde poderia ficar com seus pais.
Uma característica forte de Ana é o que chamamos no nordeste de “cabeça dura”, quando ela põe algo na cabeça, haja argumentos para contrariá-la, curiosa e emotiva, além da leitura, a mesma toca violão, desenha e não é por nada, mas dizem por ai que a mesma cozinha superbem. Parafraseando o dito popular, diria que não se faz mais mulheres como Ana.
Para melhor compreensão segue o dialogo de Paulo com seu amigo Getúlio. Após um encontro casual no centro da cidade, os bons e velhos amigos resolvem tomar um café juntos e conversar. Como está na loja? — Estamos bem, com essa crise que nosso país se encontra, não se sabe ao certo o que virá, os dias são incertos. — Responde Paulo pensativo.
— Isso é culpa desse governo corrupto que estamos vivendo, imagina só, ficar dando dinheiro para uma quantidade de pessoas, sendo que o objetivo primordial é mantê-los cativos, assim, usando seus programas em favor de votos para seu partido. — Com gestos ao ar, Getúlio argumenta em direção a Paulo.
— Não acredito que seja bem assim, como você está falando, … Interrompe Paulo.
— Que seja! — O País está quebrando e o culpado é esse governo que tem usado o marketing de propagandas sociais em favor do voto, e assim, levando o povo a engolir suas ideias….
— Não é assim amigo, você está mal informado sobre a realidade Brasileira.
— Você sempre do lado oposto.
— Apenas tenho meus valores e ideias amigo, o trabalhador Brasileiro já sofre na pele o julgo da desigualdade social desde sua invasão pelos portugueses, um governo que abrace essa causa, terá meu respeito, a politica deve governar para o povo, um dos grandes desafios desse país é a desigualdade social. Mas amigo, gostaria de lhe fazer um pedido, tenho uma amiga muito querida que conheço a algum tempo, ela é muito inteligente, batalhadora, ela e uma mulher cuidam de seus pais e queria dá esse presente pra ela, um lugar tranquilo para trabalhar que seja apenas um turno, por que a tarde ela ficaria em casa cuidando dos afazeres domésticos.
— Quantos anos ela tem? Formação?…
— Não há formação acadêmica, apenas o ensino médio completo. Tenho conversado com ela assim que posso, motivando-a a ingressar em uma faculdade. Você sabe como é difícil, porque não se trata apenas de entrar na faculdade e sim, os gastos, livros, xerox, viagens, dentre outras coisas que aparecem com o tempo.
— Amigo, eu tenho uma vaga, mas pra Editor, contudo, acredito que os que vieram do Rio de Janeiro saberão segurar por um tempo, como tenho muito carinho por você, peça a ela que vá na empresa terça pela manhã, conversarei com ela, dependendo da conversa a mesma já inicia no mesmo dia.
— Obrigado amigo.
— Não precisa agradecer, sei que você faria o mesmo.
Do mais leitor essa é apenas uma história entre muitas do real e o imaginário mundo das grandes cidades, recortes que a mim e a você, nos trazem pra perto nossos medos, fantasias, sucessos e dores.


Elmadson Almeida
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