Contando os Dias,


Na madrugada, no pouco tempo que restava, ansiedade percorria minha alma em busca de refúgio, não recordo exatamente o horário em que estava na frente no computador, talvez 4:00 da manhã, isso mesmo, nesse período ia pra a cama perto do amanhecer. Dinheiro curto, contando com a ajuda dos pais, sorte tenho por contar com a ajuda deles, sei bem que muitas pessoas não podem contar, mesmo assim, não é algo que desejaria para o momento. Pouco tempo após observei uma vaga de emprego aberta, era em um restaurante no centro de Florianópolis, antes estive a quase dois anos em um grande supermercado da região, Angeloni. A cada dia que passava a angustia ia aumentando, o peito acelerava, a data de vencimento do aluguel, contas como, cartão de crédito. A tranquilidade que outrora tinha, percorria meus dedos como água, a cada tentativa de reencontrá-la. Essa é minha chance — Pensei. Não havia mais tempo pra procurar “algo melhor”, não que seja algo desonroso, apenas longe do que estava procurando, antes saia de casa as 7:30 da manhã e só chegava as 20:00, não tinha feriado, sábado ou domingo, todo dia era dia… Por fim, não queria mais essa rotina. Contudo, pensei — pelo menos estarei empregado. Com o peito acelerado de expectativa, preparei um café, organizei meu curriculum, e por volta das 5:00 da manhã peguei o ônibus para o centro da cidade. O tempo ainda escuro, lâmpadas dos postes acessas. Aquele ar  sonolento no ônibus. 

Em momentos como esses fico pensando se nascemos pra isso, tenho certeza que não, pessoas sonâmbulas a minha volta, eu estava na frente do computador em meu pequeno apartamento no Rio Vermelho… Resolvi acreditar que a sorte estava ao meu lado, afinal poderia estar pior, o céu estava lindo e nenhum sinal de chuva, uns lendo, outros com seus fones nos ouvidos, alguns com café… Pra ser mais exato, coloquei o álbum da Banda Nirvana no MP3, tomei duas xícaras de café em casa e fui em direção a minha apresentação. Algo que esqueci de comentar é que a empresa ou o responsável que postou na internet a informação da vaga, no qual, mais tarde descobri ser o dono do restaurante, pediu apenas um e-mail, em desespero em ser logo atendido, resolvi ir direto ao local. Por volta das 7:00 da manhã, cheguei ao restaurante. Sabe, até que fui bem atendido, o sentimento de dever cumprido, o peito angustiado, a mente sonolenta, desejando que o mesmo observa-se o quão disposto estava pela oportunidade. Tinha 2 vagas para garçom e 2 para caixa, confesso que pegaria qualquer coisa, qualquer momento, sobre horário? Não importava. Mais importante pra mim naquele momento? Sei que não fui o único interessado na vaga, outros devem ter enviado o e-mail, mas eu era a primeira pessoa a aparecer no local após a publicação no grupo de busca. Ele tem que ver meu esforço — Fiquei pensando, dizendo pra mim. Fiz de tudo para convencê-lo a me dar a oportunidade, por céus. O senhor responsável pelo restaurante fez umas duas perguntas, pegou meu curriculum e pôs em mãos enquanto conversávamos. Claro que sim — Penso. O que saia de mim eram frases pensadas na tentativa de convencê-lo. Chance de ter uma noite de sono tranquila, eu começaria no momento que um sim saísse de sua boca, apenas um sim, não muito, apenas isso. O que custaria? Após ser bem atendido, bem recepcionado. Fiz o que acreditava ser o correto, confesso que não pensei muito nas pessoas que chegariam após mim, não importa se tinha experiência ou não, eu precisaria conseguir um emprego e isso era o que me motivava, me angustiava a cada instante, sai de lá na esperança de receber um telefonema, ou um e-mail qualquer… Só que passaram dias e nada aconteceu, isso mesmo, não ocorreu… O que me restou então foi levantar a cabeça e recomeçar. Nada anormal, isso ocorre todos os dias, a todo momento. Quem sabe nesse vai e vem de pessoas pelas ruas, eu encontre o que busco.

Após o décimo quinto dia do evento o qual participei como um dos organizadores, havia um belo dia de sol, típico de primavera, mesmo estando no verão em Santa Catarina, Florianópolis pra ser mais exato. Ângela, a mulher que estivera no evento comigo, partiria, retornando à sua cidade, que por sinal, distante, sendo eu novo no Estado. Dizem os viajantes que a cidade é bela, fria, não sei explicar exatamente, há boatos de que no oeste do estado vivem descendentes de italianos, essa foi a informação que chegou a mim, contudo, nada importa. Fiquei pensando na culinária, passeios, pensando se todos tinham o doce sotaque que a ela pertencia com tanta elegância. Confesso, que as vezes me encontro nas ruas buscando o rosto dela. Talvez seja hoje — penso. Desejando estar no momento e local certo ao reencontrar seus olhos negros. Na manhã de terça-feira, últimos momentos juntos naquele evento, todos os colaboradores estavam reunidos em baixo de uma bela árvore que ficava a frente a uma quadra esportiva, do outro lado havia também uma outra árvore, as folhas pelo chão me trazia a memória a primavera, evento que ocorria em uma escola localizada na Lagoa da Conceição, bairro da cidade. Já ciente de sua partida ao término do evento, procuramos aproveitar ao máximo, e nesse período convencido da naturalidade de sua partida, engano meu. Não sabendo que meu peito estava aberto e cá entre nós, existem coisas que grudam na alma, outras que conseguimos nos livrar, como a quem se desvia do perigo. Na noite anterior à partida ficamos até a madrugada acordados tocando violão, conversando, eu tocando o belo rosto dela, sentindo a textura de sua pele, decorando com a ponta dos dedos, traços que mais adiante não havia de estar tão próximo. A noite seguiu normal, após retornar ao quarto no qual estava hospedado, retirei um caderno e uma caneta da mochila a fim de escrever uma carta, para quando estiveres confortável em sua residência. Ao término da mesma ficou exatamente como queria que estivesse, creio que parte de mim negaria o que no papel estivera escrito, resolvei ignorar e prossegui, pus tudo, falei de como a conheci, os risos juntos, os beijos, os momentos de ciúmes, a espera pelo outro, o café juntos, as músicas, recordei como a quem escreve um romance sem pressa de terminar. 

Adormeci e no dia seguinte enquanto um e outro terminavam seu café da manhã, ela organizava seus pertences, por um período de tempo, o barulho se estendeu pelo local, uns arrumando suas coisas, outros conversando, despedidas, amigos trocando e-mails. Ansioso e trêmulo, pus em mãos um livro e sua carta dentro, caminhei em direção ao quarto dela, com a mão direita acariciei seus cabelos negros e com a esquerda entreguei a lembrança e nos abraçamos demoradamente. Como nem sempre as palavras fazem sentido, nos abraçamos e prometemos nos reencontrar um dia, nos beijamos, senti seus cabelos em meus dedos e a dor de nada poder fazer para que ficasse.

— Prometa-me que ira ficar bem — Disse a Ela.

— Vou ficar, siga seus projetos, você tem talento. — Responde Ângela.

De mãos dadas fomos em direção aos outros membros da organização, era o que chamávamos de Impacto 2012. Todos os participantes falaram na reunião final, seu discurso foi belo e simples, agradecendo a todos pelo carinho, amizade, nesse instante nossos olhos se encontraram. 

As 11:00 da manhã seus tios vieram buscá-la, fiquei pensando como gostaria de poder gravar seu cheiro no olfato, porém, tristonho reconheço que não lembro, eu observava ela partir, a cada segundo mais distante, até que o carro desapareceu… Os olhos enfim contemplaram o que o peito resistia a acreditar, ela havia partido. Após a ida ao banho e comer algo no almoço, resolvi tentar dormir um pouco, ao levantar mais tarde, vejo sua chamada no celular dizendo que acabara de ler a carta e que estava chorando de saudade. Quem dera que os dias fossem de profunda paz como o tempo que estive ao lado de Ângela, essa foi a última vez que nos vimos…

Por último gostaria de destacar a vez que fui submetido a uma cirurgia aos 8 anos de idade, na manhã seguinte acordei e fiquei a observar o lugar que estava, não demorei muito pra saber que não era meu quarto, ao lado camas ocupadas, o cheiro forte, que de nada lembrava a comida de minha mãe na cozinha preparando o almoço, não ouvia o barulho da moto de meu pai chegando em casa, a voz dos vizinhos. Ao abrir os olhos devagar como a quem adentra a uma floresta virgem, percorri com meus olhos o ambiente a procura de alguém conhecido. Mãe… Pai? … — Pergunto com voz tímida. — O garoto acordou — Alguém responde. Não era minha mãe, e sim uma mulher. Com lágrimas nos olhos busco compreender o que estava acontecendo, será um sonho? — Pensei. Momentos depois descobri que havia me machucado feio e por pouco perdi o braço direito. Após alguns dias no local conheci um senhor que havia perdido toda a pele da costa de seu corpo, havia também um jovem que estava com os dois braços engessados. Quanto a mim, estava o braço direito enfaixado, alguém me disse que sofri um acidente e por isso colocaram 5 pinos no braço, a mulher de branco sempre me falava para eu permanecer calmo, que tudo ficaria bem. A enfermeira fez seu papel, afinal, não se pode falar pra uma criança de 8 anos que nunca mais terá os movimentos do braço como antes. No dia seguinte acordei com todos do quarto me dando parabéns, eu havia esquecido que naquele dia era 02 de Agosto, o tão famoso “presente de grego” me vistara. Um dos pacientes fazia animais de pelúcia, deu-me um cachorro, preto com parte do rosto branco e negro. Não recordo quem exatamente me presentou, ou saber se ele ficou bem, infelizmente nada sei a seu respeito… Com o passar dos dias fui me habituando a rotina, visitas ao hospital, meus pais tendo que me acompanhar a todo instante. Dos dias que se passaram, até hoje o cheiro dos hospitais me trazem a lembrança aquele dia, todas aquelas pessoas, o choro na madrugada e eu dizendo a meu pai — Não quero café puro com pão. 

Por mais estranho que aparente ser, nas linhas acima decidi abordar momentos que  permanecem como lembranças em meu peito, quem sabe algo lhe salte os olhos, ouvidos e paladar. Esse é meu  “histórico de dores”, troféus que a mim coube tão bem.


Jason Almeida
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